Decorreu na tarde de domingo, dia 10 de abril, uma sessão pública em Loulé (Hotel Loulé Jardim) com Yusmari Díaz, a nova Embaixadora de Cuba em Portugal, com o objetivo de nos esclarecer sobre a realidade cubana e os impactos do bloqueio.

 

A sessão foi promovida pela Associação de Amizade Portugal-Cuba, representada por Paula Frazão, Isabel Gomes e Tânia Gabriel e ainda Luís Guedes, representante do Algarve.

Isabel Gomes abriu a sessão, salientando que “a associação tem vindo a lançar diversas campanhas. Neste momento, temos a campanha “Medicamentos para Cuba”. Para isso, é necessário que tenhamos um núcleo da associação em cada região do país e pensamos que estamos a criar condições para virmos a ter um também aqui no Algarve”, deixando o mote para a intervenção da Embaixadora: “O bloqueio mata, é criminoso, é unilateral e deve acabar. Os EUA devem deixar Cuba viver em paz. Cuba decidiu defender-se como país determinado, decidido, independente e senhor do seu destino e fez uma revolução assente nos direitos e necessidades dos mais humildes e oprimidos. Ao longo de 63 anos, a ilha tem enfrentado os EUA, a potência mais cruel e perversa e o seu governo fora da lei que continua a procurar assustar a população cubana para que o desespero leve o povo a rebelar-se contra as autoridades revolucionárias. A crueldade da política norte-americana foi exposta nos últimos anos quando, no meio da crise associada à pandemia da Covid-19, proibiu a venda de medicamentos e alimentos a Cuba. Enquanto o mundo procurava soluções, quando a cooperação e a solidariedade entre nações eram mais necessárias, os EUA, de forma egoísta, endureceram as sanções contra a ilha e proibiram a venda de material médico, de proteção sanitária e matérias primas para a produção de medicamentos. A resposta de Cuba a essa situação foi trabalhar com determinação, sagacidade, inteligência e soberania para descobrir 4 vacinas contra a Covid-19”.

Yusmari Díaz, a nova Embaixadora de Cuba em Portugal

 

Yusmari Díaz Pérez, uma jovem cubana de trato afável, culta, esclarecida, inteligente, professora universitária, representante da nova geração de diplomatas cubanos, começou por dizer que exerce o cargo, “o primeiro como Embaixadora, há 2 meses e 3 semanas. Uma jovem cubana designada como Embaixadora em Portugal com muita honra (aplausos na sala) para dar continuidade aos princípios da Revolução Cubana. É um grande compromisso mas também um grande desafio trasladar a situação que vive o meu país neste momento. Vim para Portugal desempenhar o cargo de Embaixadora depois de 5 anos a viver em Havana, no Ministério das Relações Exteriores, pelo que conheço muito bem a situação que o povo cubano tem passado e eu sou parte desse povo. As relações exteriores cubanas são um pouco diferentes daquelas que existem, por exemplo, aqui em Portugal e, por isso, vou abordar estes 2 anos de pandemia. O bloqueio económico, comercial e financeiro imposto a Cuba há mais de 60 anos pelos EUA, de forma unilateral, é um conjunto de medidas de pressão contra o Governo Cubano mas que afeta os direitos humanos e o desenvolvimento económico do povo cubano. Um bloqueio que tem como objetivo único quebrar o Governo Cubano e o sistema político estabelecido em Cuba desde 1959”.

Yusmari Díaz Pérez prosseguiu a sua intervenção dizendo que, “durante a pandemia, só para dar alguns dados mais atuais, tivemos mais 243 medidas unilaterais dos EUA contra Cuba, mais 243 sanções dirigidas, fundamentalmente, ao setor da Saúde. Ou seja, medidas para procurar que Cuba não conseguisse garantir medicamentos nem equipamentos hospitalares para combater a pandemia, como procurou fazer qualquer outro país. Por exemplo, as perdas do nosso sistema de Saúde, só neste último ano, devido ao bloqueio, foi de 198 milhões de dólares. Os EUA aplicaram a Cuba mais essas 243 medidas em contexto de pandemia para que não pudéssemos exercer o direito à vida, como qualquer outro país do mundo fez. Em virtude dessa situação, Cuba decidiu então tentar produzir as suas próprias vacinas porque temos um desenvolvimento biotecnológico formado por cientistas e conseguimos desenvolver 3 vacinas contra a Covid-19, apesar de todas as dificuldades impostas pelo bloqueio. Só para terem uma ideia, antes de começarmos a investigação, havia 32 produtos necessários para o desenvolvimento e produção dessas vacinas, como químicos, equipamentos de laboratório e outros materiais muito específicos do ponto de vista biotecnológico que não nos foi possível obter diretamente pelo agravamento de 10% devido às sanções. Em alguns casos, tivemos que fazer produções nossas e, em outros casos, por intermédio de terceiro, quarto ou quinto país, o que encarecia demasiado os produtos, agravando ainda mais as perdas do país em contexto de pandemia. Um custo muito elevado num momento em que o país deveria ter tido mais apoio como aconteceu no resto do mundo em termos de vacinas”.

Esta situação afetou outros setores, designadamente o setor da alimentação: “Quem for hoje a Cuba, vai constatar que a alimentação do povo cubano está muito precária. Há muitos fornecedores que, durante a pandemia, também sentiram dificuldades devido a essas novas sanções que encareceram ainda mais o custo de vida”.

A nova Embaixadora de Cuba em Portugal disse que tudo isto acontece porque os EUA “decidiram, unilateralmente, incluir Cuba na lista dos Estados patrocinadores do terrorismo, quando toda a gente sabe que denunciamos o terrorismo e somos partidários da resolução pacífica de conflitos e da não intervenção nos assuntos internos de cada Estado. Sempre que visitamos outros Estados, sempre respeitamos o regime e a soberania de cada um. Então, não havia nenhum argumento para incluir Cuba nessa lista, mais uma decisão unilateral do Departamento de Estado dos EUA. Esta é a realidade e nós temos que ir contra isso. Temos que denunciar isso porque os EUA não têm razão nesta matéria”.

Yusmari Díaz Pérez acrescentou ainda que o setor do Turismo foi igualmente afetado porque os cruzeiros para a ilha deixaram de existir por força da pandemia, pelo que Cuba passou a ter escassez de divisas, o que, acumulado às novas sanções, agravou o preço das importações em 2 ou 3 vezes relativamente a qualquer outro país do mundo. A situação económica no país agravou-se ainda mais porque, mais uma vez devido às novas sanções dos EUA, a banca internacional não congelou as contas cubanas no exterior mas levantou muitas dificuldades à sua movimentação. Os últimos dados da Economia Cubana entre 2020 e 2021, o período mais forte da pandemia, agravado pelas sanções unilaterais ilegais e de pressão dos EUA, porque não respeitam não só a soberania de Cuba mas também a soberania dos países terceiros cujas relações económicas também ficaram afetadas em função dessas sanções, revelam que o PIB de Cuba baixou 13%. As previsões do Governo, em termos turísticos apontavam para uma entrada de 13 milhões de dólares e perdemos tudo isso. Devido à paragem das transações comerciais internacionais, Cuba também deixou de exportar os seus produtos mais significativos, o rum (quebra de 86%) e o tabaco (quebra de 91%). Apesar de tudo, o Governo de Cuba entendeu que o direito à vida e à sustentabilidade do povo cubano no período da pandemia era o mais importante e investiu mais de 1748 milhões de dólares em alimentação. Tudo isto somado explica a situação económica grave de Cuba hoje, comparativamente ao período pré-pandemia. Isto são dados para que quem for hoje a Cuba, saiba quais são as causas para aquilo que vai encontrar. Vão encontrar, sobretudo, uma população muito orgulhosa do seu sistema de Saúde. Quando não podíamos comprar medicamentos e material hospitalar porque os preços encareceram muito devido às novas sanções dos EUA e, por isso, nenhum país nos queria vender nada, Cuba teve sabedoria e capacidade para produzir os seus próprios produtos e as suas próprias vacinas. O povo cubano está consciente de que a vacina nacional é muito boa e o nível de população vacinada com as 3 doses é muito elevado, superior, neste momento, a 84%. Por outro lado, a taxa de letalidade é de 0,78%, uma das mais baixas do mundo”.

Em suma, quem for hoje a Cuba “vai encontrar um país com vida mas com muitas carências porque, perante tudo isto, decidimos que o mais importante era viver”.

Yusmari Díaz Pérez abordou ainda “a Agenda 23, um Plano do Governo que prevê, designadamente, o aperfeiçoamento da governança para tornar o país muito mais democrático. Um exemplo disso é o que estamos a fazer agora, o aperfeiçoamento do sistema institucional, ou seja, da Constituição, modificada e referendada (ver AQUI a nova Constituição de Cuba de 2019) com os princípios básicos políticos que defendemos e que continuamos a defender mas idealizada para que seja mais popular e mais adaptada ao nosso tempo porque hoje entendemos que, quanto mais participação houver, mais reconhecimento as pessoas têm no nosso sistema político. Queremos que o povo seja participativo e que as pessoas possam dizer o que pensam. Ou seja, apesar de tudo, estamos a tentar seguir em frente. Apesar de tudo, temos muito orgulho no nosso país e estamos a contribuir para fazer de Cuba um país melhor. Às vezes, pergunto-me como é que este povo conseguiu aguentar tanto ao longo de 63 anos de bloqueio e ainda tem força para seguir em frente. É este o sentimento que queremos para construir o nosso futuro. Até porque Cuba tem sido muito solidária mas não pede a ninguém”.

Yusmari Díaz Pérez abordou ainda inúmeros outros temas. No final da sua intervenção, teve lugar um período de perguntas e respostas com os presentes muito participantes. Entre os temas em debate, destacamos a questão dos médicos cubanos em Portugal e a Resolução da Assembleia Geral da ONU, a qual, desde há 29 anos vem sendo, anualmente, aprovada pela esmagadora maioria dos países, condenando o Embargo dos EUA a Cuba.

Por: Jorge Matos Dias / PlanetAlgarve

abril de 2022

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