Com o aeroporto de Barbados ainda à vista, explodia e caía ao mar o avião da Cubana. Caía a aeronave, e ao mesmo tempo 73 vidas ascendiam ao altar da recordação que levanta a indignação de um povo «enérgico e viril».

Fotocomposição: Carlos M. Perdomo

 

Que pensamentos, que imagens, que sensações estavam na mente deles, poucos minutos antes da explosão? A pátria almejada? Havana perante os olhos que a admirariam a partir das janelas do avião, quando descessem à pista...?

À espera talvez sorrisos, abraços, o beijo de uns lábios que aguardavam tremendo... Acaso na Ilha os olhares delatavam quem sabe quanta ansiedade, anunciando episódios de orgulho materno, do grito, ao receber «esse meu filho campeão».

Mas a frase foi afogada pela tragédia. Suspensas no ar ficaram as carícias, o desejo de saltar ao pescoço do pai e contar-lhe as coisas que aprendeu durante os dias que esteve fora. Nunca puderam dizê-lo, nem aqueles escutá-lo. Quanta ternura inconclusa! Quanto anseio assassinado!

E lá no ar, a mais de 6 mil pés de altura, por volta do meio-dia da quarta-feira, 6, em Barbados, que planos, que esperanças viriam a alimentar as conversas antes do desenlace?

Recordações, talvez, da briga pela medalha de ouro no torneio centro-americano de juniores de esgrima, onde as ganharam todas. Começava o ciclo olímpico; Moscovo no horizonte de cada um dos 24 atletas, quase todos com menos de 20 anos. Carregavam com os sonhos de escalar a glória passado um quatriénio, porém os seus sonhos foram assassinados.

Tinham ganho em Caracas todas as estocadas, e quando já estavam a comemorar, bem no alto, ali onde não podiam apresentar luta, receberam do terrorismo desprezível, pago pelos Estados Unidos, a estocada final, ardilosa, inesperada.

Com o aeroporto de Barbados ainda à vista, explodia e caía no mar o avião da Cubana. Caía a aeronave, e ao mesmo tempo 73 vidas ascendiam ao altar da recordação que levanta a indignação de um povo «enérgico e viril».

A eles, e às vítimas que lhes antecederam, o mesmo ódio somaria outros nomes. Então foram 57 cubanos massacrados, e com o decurso da história, até aos nossos dias, já somam 3.478, elas todas por causa do rancor intolerante Made in USA.

Os autores do crime de Barbados morreram impunes, premiados, estimulados. Falaram com descaramento, ao amparo das «liberdades» que prodigaliza aquele império, paraíso de criminosos. Que diferença há entre o ato de se gabarem então, quando disseram: «Pusemos a bomba e quê», e a tranquilidade do atirador que metralhou a Embaixada cubana em Washington, em Abril passado, quando afirmou: «teria disparado ao embaixador cubano».

Tal como disse Fidel, para eles não houve um castigo pior: «a própria Revolução, seus esforços, seus sucessos, sua marcha vitoriosa».

Autor: José LLamos Camejo

Outubro, 2020