Entre a guerra militar interminável e a galopante impunidade dos covardes assassinatos de líderes sociais e antigos guerrilheiros, o caldo da violência armada que ferve na Colômbia não dá uma mínima chance a qualquer intenção de paz.

Autor: Raúl Antonio Capote | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Junho, 2020

 

Entre a guerra militar interminável e a galopante impunidade dos covardes assassinatos de líderes sociais e antigos guerrilheiros, o caldo da violência armada que ferve na Colômbia não dá uma mínima chance a qualquer intenção de paz.

Nada que seja compatível com o convívio pacífico cabe na linguagem dos promotores de conflitos, e se lá, no grande país do Norte, aparece uma cínica acusação que indica como colaborador de terroristas o país que muito sofreu o terrorismo e que não comunga com acções desse tipo; há alguns que na Colômbia se apressam a afirmar que é verdade, porque Cuba não aceita violar os protocolos acordados para a negociação do processo de paz.

O assunto é que o Governo colombiano exigiu do cubano a «captura e extradição» dos líderes do Exército de Libertação Nacional (ELN), que participaram dos diálogos em Cuba. Isso, obviamente, contradiz os mencionados protocolos, que definem muito bem como agir, caso ocorrer a ruptura da negociação; mas a exemplaridade diplomática da Ilha demonstra que jamais vai agir de tal forma.

O último dos três protocolos estabelecidos diz muito bem que, caso ocorrer a ruptura dada, é preciso garantir o retorno com segurança da delegação aos acampamentos do ELN. Isso é o que o governo de Ivan Duque pretende desconhecer, que alguns dos países garantes do processo estão lembrando que é preciso cumprir, porque são acordos de Estado.

Em uma entrevista recente, concedida ao jornal colombiano El Tiempo, o embaixador da Noruega ali, John Petersen Opdahl, afirmou: «Nossa posição é a mesma que foi do começo. Sendo co-assinantes junto com outros países garantidores deste protocolo que foi feito entre duas partes, assegurando o retorno seguro caso ruptura das negociações, temos que honrá-lo».

Parece que suas palavras foram proferidas para deixar bem clara a posição de todos os mediadores participantes. Depois, foi ainda mais explícito: «Temos que lembrar que Cuba, em um dado momento, aceitou a responsabilidade de ser o anfitrião das negociações, a pedido das mesmas partes. É claro, em uma negociação de paz, o país anfitrião deve garantir a segurança física e legal das delegações. Caso houver alguma dúvida acerca da capacidade de um país anfitrião de garantir a segurança, o caminho para a paz será muito mais difícil. Este princípio é válido para qualquer processo de paz no mundo».

Não há nada mais para dizer. Se a posição de Cuba, dita por Cuba, não é escutada ali, talvez escutem os mesmos argumentos na boca de outra pessoa.

Presentemente, há uma verdade irrecusável: a atitude do Governo colombiano de desconhecer o Protocolo de Ruptura do processo de paz e exigir de Cuba a captura e extradição dos membros da delegação do ELN é uma violação do acordo assinado pelo Estado colombiano com seis países garantes; um precedente muito grave que põe em perigo a procura de soluções negociadas no mundo, e que nessa nação sul-americana — ao que parece — pretendem dar com a porta na cara da paz.