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Categoria: Notícias de Imprensa

Uma música muito difundida da cantora argentina María Elena Walsh: Como la cigarra, tornou-se ícone de resistência na história do seu país e do continente, a partir de 1973, quando foi difundida e saiu para empolgar plateias.

Autor: Pedro de la Hoz | Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Abril, 2020

Mercedes Sosa vista por Oswaldo Guayasamín.

 

No momento, foi uma chamada de alento para fazer face à ditadura militar; agora, escutada na nação argentina e multiplicada nas redes sociais, encarna a certeza de que, quando for eliminada a pandemia causada pelo coronavírus, teremos que nos erguer como melhores seres humanos.

 

Quinta-feira, 22 de Março, faltando dez minutos para as 22 horas, 35 artistas argentinos reuniram-se para interpretar essa peça e fazê-la circular nas redes sociais e em três canais de televisão desse país austral. Passados já vários dias, milhares de internautas no mundo todo acederam a esta criação colectiva. Em Cuba, conseguiu ser ouvida na emissora radiofónica Habana Radio, no programa Cuba libre, que dirige o historiador e promotor Ernesto Limia, e com a presença de Israel Rojas (do dueto Buena Fe).

A lista de cantores envolvidos na peça é eloquente: León Gieco, Teresa Parodi, Soledad Pastorutti, Pedro Aznar, Ligia Piro, Abel Pintos, Víctor Heredia, Lula Bertoldi, Wos, Juan Carlos Bagiletto, Sandra Mihanovich, Nahuel Pennisi, Nacha Guevara, Marcela Morelo, Alejandro Lerner, Mica Vita, Luciano Pereyra, Kevin Johansen, Elena Roger, Liliana Herrero, Jairo, Hilda Lizarazu, Lisandro Aristimuño, Palo Pandolfo, Julia Zanko, Georgina Hassan, Gabo Ferro, Coti Sorokin, Mavi Díaz, Emiliano Brancciari, Gustavo Santaolalla, Liliana Vitale, Patricia Sosa, Franco Luciani e Javier Malosetti, todos sob a produção musical de Lito Vitale e a convocatória da Rede Solidária, que coordena Juan Carr.

Vale a pena acompanhar a trilha desta música. Em 1973, Maria Elena Walsh já tinha prestígio como escritora, compositora, dramaturga e cantora. De maneira muito especial, tinha cativado o público infantil, com músicas e poemas, até que, em 1968, com seu espetáculo Juguemos en el mundo: recital para executivos, empolgou para sempre os adultos. Nessa etapa, até 1978, gravou seis discos, um deles, intitulado: Como La cigarra, em 1973, que incluía a música homónima. Walsh vivia dias de efervescência, que depois se transformaram em incerteza: o retorno de Perón, a irrupção dos paramilitares e, finalmente, o golpe de Estado que implementou o nefasto Processo de Reorganização Nacional, diga-se o terrorismo de Estado.

No seu nascimento, esta peça nada tinha a ver com a tempestade política que pairava no país. Quanto a isso, o biógrafo de Walsh, Sergio Pujol, explica: «Walsh tinha composto a peça inspirada naqueles actores que perdem o trem, não podem voltar a trabalhar e sofrem uma sorte de aposentadoria antecipada. É um canto de esperança pensado para eles. Porém, depois, tal como em outros casos, as boas músicas acabam assumindo outros significados, sob circunstâncias particulares, e podem potencializar quase até o infinito».

Assim ocorreu quando os militares acirraram a repressão. Em 1978, Mercedes Sosa gravou uma primeira versão dessa peça nos estúdios Polygram, com a orquestra de Oscar Cardozo Ocampo, para incluí-la no seu álbum Serenata para la tierra de uno. A música foi censurada, mas Mercedes Sosa conseguiu incluí-la na versão mexicana do mesmo disco.

A partir desse momento, os seus versos dispararam, tal como explica o colega Gabriel Plaza: «Mercedes a incluiu no seu concerto de retorno à Argentina, em 1982. É um momento chave da história da cantora e da peça composta por Maria Elena Walsh, quase uma década antes. Como la cigarra torna-se um hino das gerações na voz de Mercedes. Parece que foi escrita para ela, uma cantora que sofreu o exílio e a proibição na própria carne. Ao mesmo tempo, a sua voz e os versos iniciais da peça parecem uma elegia do próprio país: tantas vezes me mataram / tantas vezes eu morri / contudo, cá estou ressuscitando».

Para os tempos atuais, os versos finais vêm a calhar: «...e na hora do naufrágio e da escuridão / alguém te vai resgatar / para ir cantando».