Que Martí representa para os cubanos a ideia do bem, é algo de que dá absoluta fé o Dr. Eduardo Torres-Cuevas, director da Oficina do Programa Martiano, o qual, a propósito dos actos de vandalismo ocorridos no 1º de Janeiro em Havana em alguns bustos do Apóstolo da Independência Cubana, exprime o seu ponto de vista a respeito do abominável acontecimento

 

 

«Não foi um busto que foi atacado; foi atacada uma imagem, foi atacada a alma de Cuba, que é isso que Martí e refere que não foi por acaso que Fidel Castro o referiu em 1953 como autor intelectual do ataque ao Moncada.

Durante 60 anos, explica, Martí tem estado a viver quotidianamente com as nossas crianças, com os nossos jovens, com os nossos investigadores, com os nossos trabalhadores.

Quando actos deste tipo sucedem não é a uma Revolução que se agride, mas sim «a um povo. Estão atacando a própria essência desse povo, a sua natureza e a sua grandeza. Precisamente aquilo que o representa no mais puro dos ideais com que se forja uma nação».

Todos os cubanos, desde que nascemos, temos uma imagem de Martí que vamos assumindo como um pai espiritual, como um pai moral, comenta, e faz notar que não houve que convocar ninguém para que a indignação fosse interna, que se sente e está no interior de todos, porque foi ofendida a própria razão de ser de um povo.

Na opinião do notável intelectual, os inimigos de Cuba que incentivam estes actos cometeram um grandíssimo erro: «Porque nos ajudaram a tomar mais consciência daquilo que nos une, do que somos, de quais os valores que temos como povo».

Torres-Cuevas refere quão importante é ser cubano, «é a consciência e a vontade de o ser. E a consciência de o ser é saber por que nos distinguimos», incluindo virtudes e defeitos, combatendo estes e cultivando aquelas. E, na sua opinião, é esse o segredo da reacção popular, ou seja, «uma maior identificação com o que se é e, sobretudo, a vontade de defender o que somos».

Num aparte recordou uma velha discussão entre revolucionários contra-revolucionários, a de a quem «pertencia» Martí. Até aos contra-revolucionários de hoje estes actos incomodam, porque «lhes retiram a cubanidade que eles pretendem exibir».

«Não pode haver ninguém que pense, não na Cuba nossa, mas na Cuba que querem construir – ou destruir – se não for a partir duma linguagem cubana», e quando se atacam símbolos deste tipo está-se destruindo não só o sentimento revolucionário, como também o sentimento patriótico

É na escola primária, com os próprios versos dele, que todos começamos a amar Martí. «Y começamos a sentir esse amor e a torná-lo racional. Esse sentir e pensar em Martí nasce na primária como sentimento e expressa-se na maturidade como pensamento. E é isso que nos dá mais força como nação».

Essa analogia entre Martí e o Bem, defendida pelo povo cubano, é que forja algo que muita falta faz nesta época: a ética, a decência, o modo de nos comportarmos. E Martí é fundamental para inculcar estas ideias.

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O autores da profanação de alguns bustos de José Martí, no 1º de Janeiro em Havana, foram detidos pelas autoridades cubanas. O acto consistiu em cobrir os bustos do Herói Nacional com sangue de porco.

 

Boletim AAPC de Jan. 2020