90 anos…

Passagens, reflexões, momentos vividos e outros

 

Dezembro 1964, Nações Unidas

“Nasci na Argentina, não é segredo para ninguém. Sou cubano e sou também argentino e….sinto-me tão patriota da América Latina como o mais patriota, e no momento em que seja necessário estarei disposto a entregar a minha vida pela libertação de qualquer dos países da América Latina, sem pedir nada a ninguém, sem exigir nada, sem explorar ninguém.

E nesta disposição não está apenas este representante transitório nesta Assembleia.

Todo o povo de cuba vibra cada vez que é cometida uma injustiça, não apenas na América mas no mundo inteiro.

Podemos dizer o que tantas vezes dissemos, o princípio maravilhoso de Martí, segundo o qual todo o verdadeiro homem deve sentir na sua face um golpe dado na face de qualquer outro homem.

“Depois de licenciado, talvez devido a circunstâncias especiais e talvez também pelo meu carácter, comecei a viajar pela América Latina que conheci na totalidade pelas condições em que viajei, primeiro como estudante, depois como médico, comecei a entrar em estreito contacto com a miséria, com a fome, com as doenças, com a incapacidade para curar um filho por falta de meios, quando o embrutecimento é provocado pela fome e pelo castigo permanente, até que perder um filho seja um acidente sem importância, como sucede muitas vezes com as classes mais sofridas da nossa pátria americana.

Comecei a ver que havia coisas tão importantes como ser um investigador famoso ou como dar um importante contributo à ciência médica: ajudar essa gente.

Sobre Fidel:

“Conheci-o numa dessas frias noites do México e recordo que a nossa primeira discussão versou sobre política internacional, passadas algumas horas nessa mesma noite de madrugada eu já era um dos futuros expedicionários.

Interessa-me esclarecer como e porquê conheci no México o atual chefe do governo de Cuba.

Foi no refluxo dos governos democráticos, em 1954, quando a única democracia revolucionária americana que se mantinha de pé, nesta área, a de Jacobo Arbenz, sucumbia perante a agressão meditada, fria, levada a cabo pelos Estados Unidos, por trás da cortina de fumo da sua propaganda continental. A sua cabeça visível era o Secretário de Estado Foster Dulles, por 
coincidência também secretário da United Fruit, a principal empresa imperialista existente na Guatemala.

Che, publicou nessa data o poema a Fidel, brilhante profeta da madrugada:”…e se no nosso caminho se interpuser o ferro, pedimos um sudário de lágrimas cubanas, para que se cubram os ossos guerrilheiros, no seu caminho para a história americana”.

Nota de introdução

La Higuera, Bolívia, uma habitante comenta “a alma do Che é muito boa e milagrosa. Todos lhe fazemos pedidos e eles são-nos concedidos”.

Misturando ritos indígenas e cristãos presta-se culto à memória de Che, no local onde foi assassinado a mando da CIA , com a cumplicidade do ditador boliviano da época.

“Porque será que o Che tem este perigoso costume de continuar a nascer?

Não será porque o Che dizia o que pensava e fazia o que dizia?”

Cinquenta anos depois da sua morte, continua vivo, na memória de quem o conheceu, no grito dos pioneiros cubanos,” seremos como el Che!”, na atualidade do seu pensamento.

Talvez porque Che Guevara “é somente o outro nome daquilo que há de mais justo e digno no espírito humano, aquilo que muitas vezes vive adormecido dentro de nós”- José Saramago.

Neste dia em que o Che faria 90 anos, prestamos-lhe homenagem recordando o seu pensamento.

ONU, 11/12/1964

“…Ao unirmo-nos à voz de todos os países do mundo que pedem o desarmamento geral e completo, a destruição de todo o arsenal atómico, o fim do fabrico de novos instrumentos nucleares, aos testes atómicos de qualquer tipo, consideramos necessário sublinhar que, além disso deve ser respeitada a integridade territorial das nações e deverá deter-se o braço armado do imperialismo, não menos perigoso por empunhar apenas armas convencionais.

Quem assassinou milhares de cidadãos do Congo, não utilizou armas atómicas; foram armas convencionais, empunhadas pelo imperialismo, as que causaram tantas mortes.”

 

Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de
                                                                [consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das
                                                                [igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"